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Antônio
Lopes de Sá
TENDENCIA CONTÁBIL PARA O ESTUDO DO ENTORNO DA RIQUEZA
A vocação dos estudos contábeis, no sentido de
assumir a responsabilidade holística foi
recente, e deveras muito nova se considerarmos tal etapa em relação à
já longa história da nossa ciência . O enfoque amplo da riqueza
individualizada, como fator que não poderia apenas limitar-se ao que
ocorre em relação à propriedade de uma pessoa ou de um grupo delas, só
acentuou-se, objetivamente, no século XX , embora já se prenunciasse
desde o início do anterior (em 1836, a Academia de Ciências da França,
considerou a Contabilidade como uma ciência social) . Passou-se,
modernamente, a observar os fenômenos do patrimônio das células
sociais, em relação aos que seres que vivem no planeta (especialmente a
partir da década de 20) e sobre o planeta em que vive os seres (a partir
da década de 50) . Ou seja, os fenômenos patrimoniais passaram a ser
estudados com maior seriedade em relação às influências ambientais,
quer aqueles que a célula sofre e quer aqueles que o entorno sofre, por
influência da célula . Esta, a razão pela qual, em minha teoria das
funções sistemáticas, destaquei um grupo específico para a análise
científica das "relações lógicas ambientais" . A
Contabilidade passou a preocupar-se, em seus estudos, portanto, não com o
que é
objeto de outras ciências, mas, sim, com o que no
patrimônio tais fatos provocam influências, sob a ótica de uma
eficácia holística, correlativa, em regime de interação,
especialmente, no que tange aos mundos social e ecológico . Não se
tratou de estudar os fenômenos biológicos, nem geográficos, nem
geológicos, nem sociológicos, nem etológicos, mas, sim, o que cada um
deles influi e recebe influências em razão das movimentações
patrimoniais . A esse aspecto peculiar de associação de interesses de
conhecimentos, atribui-se, hoje em dia, uma parte dos estudos, nas
ciências contábeis . Esta, a razão do aparecimento de conceitos como os
de : Contabilidade Social, Contabilidade Ambiental, Plano de Contas
Social, Plano de Contas Ambiental, Balanço Social,
Balanço Ambiental, Auditoria Social, Auditoria Ambiental , Custos
Sociais, Custos Ambientais etc. Tal tendência,
para a aplicação do conhecimento da Contabilidade, em relação ao
entorno patrimonial, foi gerada, sem dúvida
alguma, pelas reais relações que existem entre as necessidades das
células sociais e as das próprias necessidades do todo social e natural,
em face das circunstâncias que regulam essa interação entre células e
os organismos em que elas se acham contidas . Nas doutrinas do
Neopatrimonialismo, todavia, o assunto passou a ser tratado através de
teoremas específicos que foram construídos e que consideram as
relações ambientais como um componente
importante no conjunto de relações lógicas fundamentais que estruturam
os fenômenos da riqueza individualizada .
TRANSFORMAÇÕES DA RIQUEZA E DE SEU ENTORNO ECOLOGICO
Na realidade, o ambiental,
para o patrimônio das células sociais, não é apenas o ecológico, pois,
muitas outras influências existem sobre os fenômenos da riqueza
individualizada (sociais, científicas,
tecnológicas, legais, políticas, éticas etc.) . A
denominação de Contabilidade Ambiental, portanto, tão usada atualmente,
parece-me equivoca, se considerado que o entorno
patrimonial não é só o da natureza . Adoto a
expressão, pois, com restrições, e, dela discordo, em sentido de
lógica conceptual (que exige abrangência, mas,
com objetividade) . Parece-me axiomático que :
"O entorno ecológico transforma-se com o transformar da riqueza das
células sociais e a riqueza das células sociais se transforma com o
transformar do entorno ecológico". Ou
seja, portanto : "há uma inequívoca interação transformadora
entre o ambiente natural e o patrimônio das
células sociais" .
Ou ainda, quer o patrimônio, quer o ambiente natural,
sujeitam-se às leis supremas da "transformação"
e às de um regime de "interação" . Em
minha Teoria das Funções Sistemáticas, adotei o axioma da
transformação como
fundamento e entendo que ele afeta a todas as
relações lógicas responsáveis pela ocorrência dos
fenômenos patrimoniais, inclusive as ambientais.
Como ponto de partida lógico, para uma metodologia do
estudo doutrinário da questão, entendo ser
útil admitir as seguintes correlações entre a riqueza individualizada e
o ambiente natural :
1. Aumento da necessidade patrimonial com aumento dos
recursos naturais ;
2. Diminuição das necessidades patrimoniais com a
diminuição dos recursos naturais ;
3. Aumento das necessidades patrimoniais com diminuição dos recursos
naturais ; 4. Diminuição das necessidades
patrimoniais com aumento dos recursos naturais . Os
efeitos sobre a riqueza patrimonial e sobre a natureza, dependem da
combinação desses fatores
variáveis, aumentativos e diminutivos, ensejando matérias específicas
de estudos e análise particular da eficácia
combinatória . Assim, por exemplo, se as
necessidades das empresas aumentam e aquelas dos recursos naturais
se esgotam, a tendência é de que se esgote a economicidade do
empreendimento
e ocorra reciproca ineficácia (natural e empresarial)
. As probabilidades de recomposição de recursos
naturais, em face das exigências da produção
industrial, por exemplo, influem fortemente no processo
de continuidade da atividade .
Também é necessário considerar a responsabilidade
social em face dos recursos naturais, danificados por mau uso do capital
(nos quais se insere também a especulação) e esta é uma
nova face da questão a ser considerada .
Em suma, um sem número de variáveis ocorre,
oferecendo matéria de estudo para a Contabilidade e também ampliando as
responsabilidades
profissionais .
TRANSFORMAÇÕES NEGATIVAS DO MEIO AMBIENTE NATURAL
As transformações, na correlação riqueza das
células sociais com o seu entorno natural,
operam-se, através de mutações que podem ser, como
foi mencionado, aumentativas ou
diminutivas .
O que, todavia, mais preocupa, pelos efeitos gravosos
que causa, é a "diminuição e falta de
proteção ao meio ambiente", quer pelas
agressões, quer pela redução da força do poder da
natureza .
Há uma consciência social em marcha , cuja formação
se acelera e que condena a especulação
gravosa da riqueza e o uso inadequado de utilidades,
como fatores de destruição do planeta e
como lesão à vida dos entes que povoam o mundo .
O movimento das massas pressionou o poder político e
as catástrofes expressivas (Bhopal em
1984, Chernobyl em 1986, afundamentos de petroleiros,
destruições de florestas etc.) terminaram
por convencer aos dirigentes do Estado de que era grave
a questão, embora, até o presente
momento os progressos venham sendo lentos .
Como afirmou Machiavelli, a sensibilidade dos
políticos é bem menor do que aquela das massas
que eles dizem representar e o meio ambiente vem sendo
vitimado, em muitas partes do planeta pelo descaso, irresponsabilidade e
incompetência de
entendimento sobre as necessidades de
preservar o meio ambiente natural, mas, já existem
sinais de reação .
A reunião de Estocolmo de 1972, a interferência das
Nações Unidas (ECO-92) a II Cimeira da
Terra, de 1997, por exemplo, destacaram a gravidade da
questão destruidora do planeta e para a qual influem em primeiro lugar as nações mais
industrializadas e as que possuem maiores
frotas de veículos e que são as que mais poluem e
afetam o ambiente e onde os Estados Unidos
é o maior de todos os responsáveis pelos danos
causados ao planeta .
OBJETOS DE ESTUDOS E EVIDÊNCIAS AMBIENTAIS ATRAVÉS DA
CONTABILIDADE
Os efeitos que provocam destruição do ambiente natural
são, basicamente, os que se
reconhecem através do que se identifica como
"poluição" (esse o conceito usualmente difundido e
que procura abranger a todos os principais fatores,
embora não seja o exclusivo) .
Dentre eles se identificam os relativos ao que afetam,
a paisagem, o ar, os rios, os lagos, os
mares, os lençóis hidráulicos, a fauna, a flora, , o
homem (poluição sonora, , luminosa, química,
radioativa etc.) .
Empresas e especuladores sem escrúpulos devastam
florestas (a Amazônia tem sido vítima
desse fenômeno em alta escala, inclusive por invasores
de outros países, como tem mostrado a
imprensa), despejam detritos em rios, prejudicam
pessoas e plantações com excesso de fumaça
daninha, com vapores venenosos e prejudiciais à saúde
etc.
Tais efeitos que lesam o ambiente natural, podem
beneficiar a empresa, mas, são atentados
contra a vida no planeta podendo, pois, ser
considerados, sob essa ótica, como gestão
inescrupulosa de capitais .
Para o conhecimento dessa interação entre a empresa e
a sociedade, entre a empresa e a
natureza, é que se utilizam recursos contábeis, quer
através de registros, quer de demonstrações,
auditoria, análise, produção de modelos de
comportamento etc.
Tanto a ciência, como a tecnologia da Contabilidade,
estão recentemente sendo aplicados para
que se consiga minorar os problemas gravosos ao meio
ambiente natural .
Os denominados "Princípios Valdez", sobre a
relação humana em face da natureza, estão ganhando amplitude internacional e referem-se a ações
que implicam em responsabilidades
empresariais, quer direta, quer indiretamente, e
relacionam-se a :
1. Proteção da biosfera ;
2. Uso racional de recursos naturais ;
3. Redução e eliminação de desperdícios ;
4. Uso eficiente da energia ;
5. Redução de riscos para os trabalhadores e
comunidade circundante ;
6. Venda de produtos e serviços seguros ;
7. Compensação de danos causados ;
8. Informação sobre empresa/meio ambiente ;
9. Designação de diretores e responsáveis pelas
questões ambientais e
10. Auditoria do meio ambiente .
Tais princípios que visam a proteger o planeta e os
seres que nele habitam , todos, quer direta, vêm sendo objetivados por
outras disciplinas, como a da Administração e a do Direito .
Os delitos ecológicos, praticados pelo mau
comportamento dos capitais, são hoje investigados
em diversas nações e a Contabilidade tem servido de
útil instrumento para identificar e evidenciar
tais fatos.
O ideal, todavia, é que se evite o delito e essa deve
ser a meta .
Ou seja, a eficácia do desempenho patrimonial deve
coincidir com a eficácia da utilização
racional da natureza .
Por eficácia racional em face da natureza entende-se o
bom emprego dos recursos que o
planeta generosamente oferece ao homem, mas, exigível
sendo a responsabilidade deste para
com a preservação e proteção ecológica .
Evitar a depredação dos meios naturais, renovar
elementos subtraídos, sempre que possível, até com o acréscimo na renovação, para proteção contra
riscos e o com o zelo suficiente, complementam as relações de eficácia
.
Deve existir, pois, uma interação, ou seja, o
ambiente natural suprindo a empresa de meios e
esta suprindo de meios o seu entorno ecológico .
METODOLOGIA CONTÁBIL PERANTE AS RELAÇÕES AMBIENTAIS
NATURAIS
Identificação, registro, demonstração e análise dos
fatos patrimoniais que se referem às relações
ambientais naturais, devem ser objeto de estudos da
Contabilidade .
Contemporaneamente parece ser de livre aceitação que
a tecnologia, a ciência e até a filosofia
da Contabilidade estejam também dedicadas aos estudos
e aplicações desses com vistas à
proteção ambiental natural .
Em minha teoria geral do conhecimento contábil enfoco
essa necessidade como fundamental,
mas, também, a entendo como inerente à nossa
consciência ética .
As responsabilidades do profissional, quer perante o
social, quer perante o planeta, exigem,
ambas, que se amplie, como conhecimento cientifico
contábil as questões relativas ao tema da
ecologia, como riqueza universal que de fato é .
A ciência, como afirmam vários intelectuais e como
bem leciona Granger, tem como primeira
condição a "visão de uma realidade" (Gilles-Gaston
Granger , A Ciência e as Ciências, edição
Unesp, São Paulo, 1994, página 45) e a da
Contabilidade insere, em seu contexto, aquela das
relações ambientais, como fatores estruturais na
ocorrência dos fenômenos que indaga .
A realidade que se nos apresenta, em nossa disciplina,
tem ligação estreita com uma evolução
peculiar das sociedades humanas. Aumenta a nossa preocupação, no estudo das
matérias
referidas, o fato de que talvez , em
nenhum século anterior, o homem tenha violentado tanto
a natureza como no século XX e nem
ainda podemos prever o que seguirá destruindo, em nome
de um progresso (que várias vezes
tem sido marcha desorganizada de desperdícios e
lesões à continuidade da própria vida) . Estamos diante de um processo de
degradação dos
níveis de vida naturais que podem, em breve tempo, inviabilizar a existência do homem sobre
a terra, se prosseguirem as agressões
ambientais .
Entendo que, do ponto de vista ético, à classe dos
contabilistas compete, não só conscientizar
os empresários de seus deveres, como, também,
desenvolver critérios práticos e científicos
para a produção de modelos de comportamento da
riqueza e que possam beneficiar, em vez
de depredar a natureza .
A identificação dos fenômenos de interação entre o
entorno ecológico e o capital, entre este e
o meio ambiente natural, deve ser sempre um ponto de
partida .
Tal fato, exige uma planificação de contas especifica
e também a idealização de demonstrações
claras e objetivas, para a evidencia dos registros .
A ótica a ser seguida, no método, será, entendo,
sempre a da interação das eficácias, entre as
das finalidades das células sociais e as das
necessidades de preservação e proteção do meio
ambiente natural .
Como as contas devem expressar objetos definidos e como
esses devem expressar uma
realidade de fenômenos, por suas características
essenciais, o Plano de Contas , no caso,
deve ser específico e será diferente em relação ao
usualmente adotado para fins financeiros .
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